quinta-feira, 29 de julho de 2010  
 

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Resenha: Os Novos Idosos Brasileiros

Resenha

Foi publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no final do ano passado, o livro “Os novos idosos brasileiros: muito além dos 60?”, organizado por Ana Amélia Camarano, uma espécie de “reedição” ampliada do livro lançado em 1999 sobre o perfil das condições de vida do idoso brasileiro e sua inserção na sociedade,  por intermédio do mercado de trabalho e da família. A obra atual consiste num amplo retrato da situação do idoso no Brasil, por meio de artigos de diversos autores. Confira a resenha escrita por Maria Tereza de Marsillac Pasinato, pesquisadora do grupo de População e Cidadania da Diretoria de Estudos Macroeconômicos (Dimac) do Ipea.

 

 

Os Novos Idosos Brasileiros

 

Maria Tereza de Marsillac Pasinato

mtereza@ipea.gov.br

 

O envelhecimento da população parece ter, finalmente, entrado na pauta das relevantes questões socioeconômicas brasileiras. O número de indivíduos com mais de 60 anos dobrou nas últimas duas décadas (de 7 milhões em 1980 para 14 milhões em 2000), ao mesmo tempo em que o ritmo de crescimento da população brasileira desacelerou em função da rápida queda da taxa de fecundidade. Neste mesmo intervalo de tempo, a esperança de vida ao nascer aumentou em nove anos para os homens e em 11 para as mulheres. Some-se a isso as profundas transformações nas esferas econômica, social e política, nos sistemas de valores e nos arranjos familiares que fazem com que o envelhecimento da população seja, ao mesmo tempo, parte atuante e resultado do processo de desenvolvimento e transformação das sociedades.

Em “Os novos idosos brasileiros: muito além dos 60?”, livro recém-lançado, organizado por Ana Amélia Camarano, com a colaboração de pesquisadores de diversas áreas do conhecimento e instituições, procurou-se não apenas analisar o fenômeno do ponto de vista demográfico, mas também entender a complexidade e a heterogeneidade do subgrupo populacional considerado idoso, suas demandas por políticas de proteção social e as formas como a sociedade brasileira vem percebendo e se ajustando a essa mudança em sua estrutura etária.

O livro assume que o avanço da idade traz tanto vulnerabilidades – como a perda de papéis sociais, o afastamento da atividade econômica, o agravamento de doenças crônico-degenerativas, a perda de pessoas próximas, a proximidade da morte – quanto potencialidades – uma vez que o avanço dos sistemas de proteção social possibilitou o surgimento de um subgrupo populacional formado por indivíduos que ao mesmo tempo não são mais enquadrados em idade ativa, porém tampouco apresentam sinais de senilidade e decrepitude. Estas vulnerabilidades e potencialidades, no entanto, são mutáveis ao longo do tempo e diferenciadas por grupos sociais, regiões geográficas, etc. Os atuais idosos tiveram a oportunidade de vivenciar o período ativo em uma época marcada pelo pleno emprego e crescimento da economia. Atualmente, quase a totalidade deles desfruta de um benefício do sistema de seguridade social. Mas será essa a realidade que aguarda os nossos futuros idosos? Ao descrever as condições de vida, os recursos materiais e econômicos e as políticas direcionadas para os idosos atuais, o livro procura contribuir para a construção dos possíveis cenários sobre as condições de vida dos futuros idosos.

Para os sistemas de seguridade social, a mudança na estrutura etária, decorrente do envelhecimento da população, apresenta implicações sobre a viabilidade intergeracional dos atuais mecanismos existentes, essenciais para a manutenção do bem-estar tanto das gerações mais velhas – atuais idosos, quanto das gerações mais novas – futuros idosos. No plano econômico, há o agravamento da relação de dependência dos sistemas previdenciários, estabelecidos em grande parte com base em acordos intergeracionais e em regras de funcionamento, na melhor das hipóteses, datadas de meados do século passado. No que se refere aos aspectos de saúde, pode-se dizer que as últimas décadas do século XX apresentaram importantes avanços na qualidade de vida dos idosos mais jovens. Porém, à medida que crescentes contingentes de idosos vivem mais tempo, possivelmente crescentes também serão as demandas por cuidados de longa permanência de idosos com algum grau de dificuldade para a execução das atividades da vida diária. Nesse caso, a provisão dos cuidados por parte das famílias para com seus membros idosos torna-se cada vez mais difícil, em função da redução do tamanho das famílias e da crescente participação da mulher – tradicional cuidadora – no mercado de trabalho. Isto desvia ou para a esfera estatal ou para o mercado a demanda por novos mecanismos de apoio/suporte.

O livro perpassa, ao longo dos seus 17 capítulos subdivididos em cinco partes, desde o perfil sócio-demográfico dos atuais idosos brasileiros até as implicações que a questão do envelhecimento populacional pode apresentar para os contratos intergeracionais, tanto internos à família quanto em termos de políticas públicas. Apresenta, também, o cálculo de um índice de preços específico para a cesta de consumo dos idosos, o que representa um avanço em termos de instrumental para o auxilio a formulação de políticas públicas voltadas para os idosos.

São detidamente analisadas, também, as condições materiais e econômicas dos idosos. Nesse sentido são apresentados estudos que envolvem desde a importância dos rendimentos do trabalho para os idosos brasileiros, bem como a acumulação dos diversos capitais (financeiro, material, social e humano), tanto em uma perspectiva dinâmica da acumulação ao longo do ciclo de vida, quanto da perspectiva do estoque de capital. Com base nos dados da Pesquisa de Comportamentos Financeiros da Abecip para oito regiões metropolitanas, Néri et alli apresentam um estudo sobre o processo de acumulação e desacumulação de recursos financeiros ao longo do ciclo da vida, com especial ênfase na demanda de ativos, crédito e seguros por parte dos idosos. Os resultados apontam a caderneta de poupança como o ativo financeiro mais popular entre os idosos. O principal motivo apresentado pelos idosos para a aplicação em cadernetas de poupança refere-se a sua utilidade para a prevenção de eventuais emergências. Esta predileção dos idosos por cadernetas de poupança pode estar atrelada a questões geracionais. Por um lado, os atuais idosos não participaram ativamente das inovações do mercado financeiro. Por outro lado, supõe-se que com o avanço da idade as pessoas tendam a apresentar um comportamento mais conservador e a caderneta de poupança é considerada uma aplicação financeira de baixo risco.

Sintetizando, o livro procura abordar a questão do envelhecimento não apenas como uma questão referente aos idosos e sim como um desafio para toda a sociedade. A exemplo da experiência pessoal/individual, a sociedade brasileira experimenta atualmente um processo de envelhecimento. Em termos econômicos, as decisões de consumo, de poupança e de investimento feitas pelos idosos de hoje em tempo passado ou presente afetam toda a sociedade. A experiência e os recursos dos idosos, quer tangíveis ou não, não são usufruídos apenas por eles.  Como salientado pela declaração política que precede o Plano de Ação para o Envelhecimento das Nações Unidas: “Quando o envelhecimento é entendido como um êxito, o aproveitamento das capacidades e das experiências dos idosos é naturalmente reconhecido como um fator valioso para o crescimento de sociedades maduras, plenamente integradas e humanas.” (art. 6o. Declaração Política do Plano de Ação para o Envelhecimento, Nações Unidas, 2002)

Este artigo reflete as opiniões da autora, e não do Anapp Informa. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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